Fechamento da fábrica Alpagartas em Nova Cruz deixa os operários chocados

11:55:00



“Quando a gente viu que começava a faltar material, não imaginava que seria o fechamento", relata uma costureira de 37 anos, que não quis se identificar, sobre a última quinta-feira (31), quando o gerente da fábrica de Nova Cruz da Alpargatas S.A. anunciou o encerramento da unidade. Segundo disse, em entrevista por telefone, até especulou-se uma redução de funcionários com a extinção do terceiro turno, ficando ativo só os horários da manhã e da tarde. No entanto, o pior estava para acontecer. "Quando vi o RH chegando com os seguranças, entendi que ia ser o fechamento mesmo. Foi o maior desespero pra todo mundo, a gente ficou em choque”, revela.

Com mais de 25 anos de operação no Agreste potiguar, a companhia anunciou o desligamento total das atividades fabris no Rio Grande do Norte na última semana, deixando 375 pessoas desempregadas. “No momento eu fiquei em choque sem saber se acreditava; eu pensei ‘meu Deus, o que eu vou fazer? E meus colegas?’ porque eu penso em cada um... Eu, pelo menos, ainda tenho a costura que faço em casa e meu marido que trabalha fora. Mas e aqueles que dedicaram o tempo todo lá dentro e que estão sem rumo, sem saber o que fazer?”, lamenta a ex-funcionária da fábrica.

A última unidade que atuava no estado fechou sem aviso prévio aos trabalhadores, ao sindicato ou à prefeitura do município. Outra costureira de 38 anos de idade, que dedicou mais de 22 à fábrica e que também pediu para não ser identificada, explica que a notícia foi recebida com desespero por parte dos funcionários. “A gente levou um susto porque o anúncio foi feito de surpresa, ninguém esperava, mas havia uns dias que eu sentia que algo estranho ia acontecer, porque não estava mais vindo caminhão com material”, conta.

Segundo ela, antes eram produzidos até sete modelos diferentes de calçados, mas ultimamente só estavam sendo realizados dois modelos. “A venda não estava saindo. Não adianta a gente fazer um monte de tênis e eles ficarem no estoque, os lojistas não estavam fazendo pedidos porque os pedidos não estavam vendendo”, explica a costureira. De acordo com ela, a rotina de produção era dividida em três turnos de trabalho, no qual o primeiro turno funcionava das 5h30 às 14h, o segundo das 14h às 22h e o terceiro turno das 22h às 5h30. A demanda da empresa era entregar cerca de 3.600 pares de sapatos por dia.

Dentre os motivos para o encerramento da fábrica de Nova Cruz, a falta de incentivo fiscal é um dos responsáveis por fazer com que a empresa tenha saído do Rio Grande do Norte ao longo dos últimos dez anos e migrado para a Paraíba. Um ex-funcionário da fábrica afirma que além do prejuízo financeiro, foi pontuado durante a reunião que ocorreu para anunciar o fim da unidade que o governo do estado vizinho dava mais apoio relacionado a impostos do que o RN.

Todos os trabalhadores consultados afirmaram categoricamente que a empresa asegurou o pagamento das contas e de todos os direitos garantidos aos funcionários. A costureira de 38 anos afirma que entre 13 e 14 de setembro vai haver uma reunião juntamente com o sindicato para a Alpargatas abater o débito. A mulher de 37 anos que também trabalhava no setor de costura explica, ainda, que “a companhia vai pagar as contas direitinho e além de pagar algo como um reconhecimento para cada funcionário. Para quem tem até 4 anos de trabalho na empresa, eles vão dar um salário a mais. Quem tem 6 anos, eles vão dar um salário e meio e para quem tem acima disso eles vão dar 3 salários”.

As trabalhadoras lamentam o encerramento da atividade fabril. “Era minha segunda família”, afirma uma delas e complementa: “Mas a vida é assim, como diz o ditado ‘Deus fecha uma porta, mas abre outra’, agora é esperar conseguir outro emprego”.

Secretário de Desenvolvimento e prefeito se dizem surpreendidos

O prefeito do município, Targino Pereira, sente o impacto na economia local e ressalta que haver mais 400 pessoas desempregadas em uma cidade como Nova Cruz é algo para se lastimar muito. Ele afirma que o fato foi inesperado, tanto que a prefeitura estava estudando no ano passado a possibilidade apoiar a ampliação da fábrica, mas a companhia informou que a reforma não seria possível devido à falta de espaço.

O gestor relata que tentou entrar em contato com a gerência das Alpargatas, mas não obteve respostas com mais informações sobre o assunto e apenas lamenta que a empresa tenha largado tudo de repente sem dar uma satisfação. “Só nos resta lastimar, porque a produtividade era muito forte, inclusive os funcionários trabalhavam em três turnos”, afirma. Targino Pereira também relata a preocupação em tentar buscar outra empresa para ocupar o espaço, que pertence ao município e será disponibilizado.

O secretário de Desenvolvimento Econômico do RN, Flávio Azevedo, também admitiu surpresa ao ser informado sobre a desativação da empresa. Ele explica que há um desconhecimento sobre o que levou ao encerramento das atividades, se a decisão foi baseada por uma questão interna da diminuição de produção em função da crise econômica ou se também levou em consideração o “ambiente hostil do Rio Grande do Norte” para empresas que usam intensivamente mão de obra. O secretário afirma estar apurando o caso, mas, assim como a prefeitura, também não obteve retorno por parte da gerência.

O secretário não comentou sobre as políticas adotadas pelo governo do estado em relação ao incentivo fiscal, mas criticou a atuação de uma parte do judiciário em dificultar e desestimular qualquer unidade produtora que queira se instalar no RN. “As interpretações da legislação são feitas da forma mais restritiva possível e isso atrapalha a atividade empreendedora de uma forma geral, não só a indústria, mas o comércio também”, relata.

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