Facções expulsam moradores de suas casas, e Ceará acumula refugiados urbanos

07:54:00

Num primeiro momento, João (nome fictício) deu de ombros para as ameaças. Há quase 30 anos na mesma casa, não imaginava que seria expulso da comunidade que viu crescer em Fortaleza.

Em junho passado, o que era apreensão virou medo. Homens em motos rodaram o bairro gritando os números das residências das quais os moradores tinham 48 horas para partir. Ou morreriam.

“Minha casa estava entre elas. [Os bandidos] foram me buscar dias depois. Eu não estava, só minha família. Tinha acabado de sair, e os vi do carro. Não retornei. Foi o tempo de minha família recolher o que podia e sair.”

Em dez dias, a família dormiu em cinco lugares diferentes, com medo. “Vivo escondido mesmo sem dever um centavo a ninguém”, conta ele, que era dono do imóvel e hoje paga R$ 400 de aluguel no interior do Ceará. O nome dele e o das vítimas citadas nesta reportagem foram trocados.

João faz parte das 133 famílias que, desde junho de 2017, procuraram a Defensoria Pública do Ceará relatando a expulsão de suas casas por facções criminosas que dominam principalmente a zona periférica de Fortaleza.

“Os chamamos de refugiados urbanos, pessoas que perdem suas casas e hoje moram longe de onde sempre viveram ou do conjunto para qual mudaram por meio de programas sociais”, diz a defensora pública geral, Mariana Lobo.

O número de pessoas atendidas é multiplicado por quatro, média de uma família comum, o que significaria mais de 500 expulsos. A defensora calcula, porém, que é um número subestimado, já que muitos têm medo de denunciar.

Somente no bairro de João, de janeiro a junho deste ano, 54 famílias tiveram que deixar suas casas, algumas com tanto medo que pediram escolta para a polícia, e apenas duas procuraram ajuda.

A guerra entre traficantes, principalmente, fez com que Fortaleza aparecesse no topo do levantamento de mortes violentasentre as capitais brasileiras em 2017, com 77,3 mortes por 100 mil pessoas, atrás apenas de Rio Branco, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em Fortaleza, o PCC, o Comando Vermelho e os Guardiões do Estado, uma facção local, disputam pontos de venda de droga.

O Ceará é o terceiro estado mais violento do Brasil (59,1 mortes por 100 mil), atrás de Rio Grande Norte e Acre —a taxa média do Brasil é de 30,8.


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