MOSSORÓ: Guerra de facções faz taxa de homicídio aumentar 247% em apenas 15 anos

06:56:00


Nas quatro horas e meia de viagem de ônibus entre Natal e Mossoró, você provavelmente vai ouvir três histórias sobre o município do semiárido do Rio Grande do Norte: 1) faz tanto calor na cidade que a água do chuveiro já desce quente sem você precisar ligar a eletricidade; 2) Mossoró foi o único local do Nordeste que expulsou o bando de cangaceiros liderado por Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião; e 3) a violência está matando muita gente em Mossoró.

Elas não são apenas anedotas: 1) às 11h do dia 18 de julho, pleno inverno, fazia 35ºC em Mossoró e a água do chuveiro caía quente sem ajuda; 2) em 1927, Lampião tentou saquear a cidade, como fez com outras dezenas, mas foi rechaçado a tiros por um grupo de moradores que se entrincheiraram até em uma igreja.

Mas, atualmente, o último ponto é o mais importante para quem vive em Mossoró: 3) como uma cidade média do interior do Nordeste, com 294 mil habitantes, pacata até 20 anos atrás, aumentou suas taxas de homicídios a níveis altíssimos e, hoje, convive com um conflito entre três facções criminosas?

A violência em Mossoró é uma espécie de símbolo do que aconteceu no Nordeste nos últimos anos.

O crescimento econômico e populacional foi acompanhado pela chegada de redes criminosas do Sudeste, como o paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) e o carioca Comando Vermelho.

Esse movimento gerou quadrilhas locais menores, que atuam em contraposição às “gangues nacionais”. Esses grupos passaram a se digladiar pelo controle de territórios e do tráfico de drogas, fomentando uma explosão de homicídios nas capitais, mas também em cidades menores do interior, como Mossoró. Por outro lado, em geral, os investimentos dos governos nas forças policiais não acompanharam a onda de violência.

O resultado desse caldo explica o aumento de 64% na taxa de mortes violentas no Nordeste entre 2007 e 2017, segundo dados do Atlas da Violência, publicação anual do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. No mesmo período, esse índice caiu 17% no Sudeste.

Já Mossoró tinha 213 mil moradores em 2003, segundo o IBGE, e registrou 50 homicídios naquele ano – 23 casos para cada 100 mil pessoas. No ano passado, porém, foram 236 assassinatos em uma população de 294 mil habitantes – 80 mortes violentas por 100 mil. Ou seja, enquanto o número de moradores do município cresceu 38% nesse período, a taxa de homicídios aumentou 247%.

Esses dados de Mossoró, segunda maior cidade potiguar, refletem uma crise de segurança pública vivida pelo Rio Grande do Norte, hoje o Estado mais violento do Brasil. Entre os municípios do RN, Mossoró só perde em violência para a capital, Natal.

Em 2017, o Rio Grande do Norte registrou 62,8 mortes violentas por 100 mil habitantes, o maior número do país. Foi o Estado em que essa taxa mais cresceu desde 2000 – alta de 556%. Como comparação, em São Paulo, ocorrem 10 mortes por 100 mil; no Rio de Janeiro são 38 casos.

BBC

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