Homicídios aumentam 35% em Macaíba e disputa entre facções é investigada

maio 11, 2021




Localizada geograficamente entre Natal, Parnamirim e São Gonçalo do Amarante, a cidade de Macaíba tem virado palco de uma guerra criminosa que busca domínio territorial para o comando das ações criminosas na cidade e na região. O acirramento pela expansão das ações criminosas de duas facções resultou numa chacina que vitimou pelo menos seis pessoas e também no aumento do número de homicídios no município no primeiro quadrimestre de 2021. As motivações seguem sendo investigadas, mas uma das linhas exploradas aponta para uma possível vingança entre membros dos grupos. Foram pelo menos 38 homicídios em Macaíba neste ano, aumento de 35,7% em relação ao primeiro quadrimestre de 2020. A cidade está na contramão do Estado, onde foi registrada uma diminuição.

De acordo com o delegado de Macaíba, Cidorgeton Pinheiro da Silva, responsável pelas investigações na cidade desde março de 2019, as disputas por determinados territórios entre uma facção de atuação nacional (Primeiro Comando da Capital) e outra de atuação local (Sindicato do RN) têm gerado os conflitos criminosos. Segundo ele, um diferencial de Macaíba em relação aos outros municípios é o fato de que uma das lideranças nacionais do PCC é natural da cidade: Gilmar Pinheiro Feitoza, o Cigano, um dos braços direitos dos principais nomes da facção, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, atualmente preso numa unidade federal.

“Nosso problema hoje em Macaíba é a questão do domínio territorial. A facção de São Paulo, em alguns locais do RN, surgiu dentro dos presídios. A daqui de Macaíba não, ela tem ligação direta com os líderes lá de SP, porque um macaibense é vinculado ao líder maior dessa facção e em razão disso houve uma logística maior para os criminosos daqui”, comenta.

Segundo investigações do Minist ério Público de São Paulo, Gilmar Feitoza era um dos principais líderes da facção paulista. Ele foi preso pela Polícia Federal em março de 2016, numa ação que prendeu outras 28 pessoas e apreendeu meia tonelada de cocaína e 29 toneladas de maconha, além de armas e munições. Com a prisão dele, o irmão dele, Francisco Canindé, “Chico do PCC”, tinha em mãos uma lista de nomes de agentes públicos que deveriam a ser executados após a transferência de Marcola para uma penitenciária federal. No entanto, Chico foi morto em outubro de 2019, em contronto com a Polícia, mais especificamente com a Rota.
“Ficou uma pressão para que houvesse uma retaliação, assassinato de autoridades, agentes penitenciários. O Gilmar era o braço direito do Marcola nas ruas. Depois ele foi preso pela PF e estava incumbido de cobrar aos integrantes da rua para executar essas missões. Com a ida dele para o sistema federal, essa missão ficou a cargo do Francisco”, disse à época à TV Band o promotor Lincoln Gakiya, que atuava no Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Segundo a Polícia Civil do RN, esse elo entre Gilmar e membros da facção paulista em Macaíba facilita um fenômeno de “intercâmbio” de criminosos do RN.

“Alguns, quando se destacam com reincidência de crimes, que sabem que estamos na iminência de pegá-los, vão para São Paulo, passam um tempo e voltam”, comenta. “Não é uma migração, é um refúgio, algo sazonal em razão da reincidência de crimes graves de uma determinada célula”, acrescenta.

Em Macaíba, há “zonas sensíveis” que comumente são alvos de troca de tiros e briga por expansão de territórios entre as facções. Segundo a Polícia Civil, os locais são Villar de Cima, Baixa, Vila São José, Residencial Campinas, Alfredo Mesquita, Morada da Fé e Mangabeira.

“Essa disputa territorial se dá para fins de tráfico de drogas. O que sustenta essas organizações criminosas é isso. É muito rentável, são quantidades virtuosas que circulam em Macaíba. A área rural é extensa, eles utilizam muitas granjas. Em razão da localização geográfica da cidade, ela permite que diversos ramos de criminosos venham para cá. Não é só tráfico. O maior desmanche de veículos do RN pegamos esse ano. Eram centenas de veículos aqui”, acrescenta Cidorgeton Pinheiro.

Na avaliação do delegado, o acirramento no combate entre as facções, que buscam poder, território e domínio sob o tráfico de drogas na região, além da localização geográfica da cidade, que fica na intersecção entre três grandes municípios da Grande Natal, fez crescer os índices de criminalidade em Macaíba.

“Atribuo a acentuação entre a rivalidade nas facções. A maioria das pessoas que está morrendo na cidade é ligada a facções criminosas e a rivalidade entre eles”, aponta. As brigas entre essas duas facções têm se tornado constante nos últimos anos em várias regiões da Grande Natal. Os combates são fruto de uma guerra que nasceu nos presídios, mais especificamente em 2017, na rebelião em Alcaçuz, quando 27 detentos foram assassinados na maior chacina da história do sistema penal do RN.

▪️ Tribuna do Norte ▪️@plantaocaico ▪️



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